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Dólar baixo impacta preços severamente e muda o jogo da comercialização do café no Brasil
Mais do que a bolsa, é o câmbio que tem definido o ritmo de venda no país; mercado interno exige estratégias
Por Toninho Gaúcho
Publicado em 28/04/2026 08:30
Boletim

A comercialização do café brasileiro vive um momento de mudança importante, em que o câmbio passou a ter peso decisivo não apenas na formação de preço, mas principalmente na estratégia de venda do produtor. Tradicionalmente guiado pela bolsa internacional, o mercado agora exige uma leitura mais ampla, em que o dólar pode acelerar ou travar negócios, ao mesmo tempo em que abre espaço para alternativas dentro do próprio país.

O café é negociado globalmente com referência na ICE Futures US, com preços definidos em dólar. No Brasil, o valor recebido pelo produtor resulta da conversão dessa cotação para reais. Isso faz com que oscilações cambiais impactem diretamente o preço interno, mesmo quando a bolsa apresenta movimentos mais suaves.

Nos últimos dias, o dólar voltou a mostrar forte volatilidade, saindo da faixa de R$ 5,20, recuando para níveis próximos de R$ 4,97 e operando ao redor de R$ 5,00 em 27 de abril. Esse movimento, embora aparentemente limitado, tem alterado o comportamento dos agentes de mercado.

 

De acordo com o economista e analista de mercado de café Thiago Rosa, o impacto direto do câmbio no preço da saca, quando combinado com a bolsa, gira em torno de 50 a 60 reais. No entanto, o efeito mais relevante está na dinâmica de mercado. A queda do dólar, somada à redução de cerca de 7 por cento no diferencial de preço, gerou uma perda real próxima de 80 reais por saca, reduzindo o apetite dos exportadores e deixando o mercado mais retraído.

Na prática, isso se traduz em menor demanda e maior dificuldade de negociação. Com compradores menos ativos, o produtor encontra um ambiente mais travado, em que a decisão de venda passa a depender não apenas do preço, mas do momento do câmbio.

Esse cenário reforça uma mudança de comportamento. Em períodos de dólar mais baixo, a tendência é de retenção de oferta, enquanto picos da moeda criam janelas rápidas de comercialização. Ao mesmo tempo, a leitura do mercado se torna mais complexa, já que bolsa e câmbio nem sempre caminham juntos.

Mercado interno ganha força diante da volatilidade

Apesar da forte influência do mercado externo, uma parcela relevante da comercialização do café brasileiro ocorre dentro do próprio país, em reais e voltada ao consumo interno, que é um dos maiores do mundo. Em momentos de grande oscilação cambial, esse mercado doméstico passa a ganhar ainda mais importância.

Segundo o analista de mercado e diretor da Pharos Consultoria, Haroldo Bonfá, a volatilidade do dólar tem levado produtores a buscar alternativas fora da exportação.

Ele explica que muitos agentes têm direcionado vendas para o mercado interno justamente para escapar da instabilidade cambial. Nesse ambiente, o produtor negocia em reais e reduz a exposição às oscilações da moeda americana.

Ao mesmo tempo, Bonfá destaca que o mercado ainda trabalha com expectativas distintas para o câmbio. O boletim Focus, divulgado pelo Banco Central do Brasil, indicava projeções próximas de 5,30 para o fim do ano, criando uma diferença relevante em relação aos níveis atuais ao redor de 5,00.

Na avaliação do analista, embora o dólar possa voltar a subir em determinados momentos, o cenário global tem favorecido a entrada de capital no Brasil. Esse movimento é refletido no aumento do fluxo para a bolsa brasileira, a B3, que tem registrado sucessivos recordes de entrada de recursos estrangeiros.

Com isso, o produtor se vê diante de duas estratégias claras: vender no mercado interno, reduzindo a exposição ao câmbio, ou acompanhar de perto as oscilações do dólar em busca de oportunidades mais favoráveis na exportação.

Fluxo financeiro dita o ritmo do mercado

Outro fator que amplia a complexidade da comercialização é a influência do capital financeiro sobre os preços internacionais. Segundo Thiago Rosa, o comportamento do café nas bolsas está diretamente ligado à atuação de fundos de investimento, classificados como não comerciais nos dados da Commodity Futures Trading Commission.

Quando esses agentes aumentam sua exposição, o mercado ganha força compradora. Em momentos de retração, a pressão vendedora prevalece, impactando as cotações independentemente dos fundamentos físicos do produto.

Esse cenário ajuda a explicar por que muitos produtores enfrentam dificuldade na leitura do mercado. A formação de preço deixa de depender apenas de oferta, demanda e qualidade, passando a incorporar fatores macroeconômicos e fluxo global de capital.

Ano eleitoral reforça pressão sobre o câmbio

Em 2026, um componente adicional entra na equação. Dados apresentados pelo analista indicam que, em cinco das últimas seis eleições, o dólar caiu no primeiro semestre. Até abril deste ano, a moeda acumula queda próxima de 8 por cento, dentro desse padrão histórico.
Esse movimento tende a reforçar a pressão sobre os preços em reais, especialmente quando combinado com diferencial enfraquecido e menor demanda externa.

Decisão financeira, não apenas agrícola

O produtor brasileiro passa a operar em um ambiente mais desafiador, em que a comercialização exige planejamento, informação e agilidade. A volatilidade cambial aumenta a incerteza, dificulta a formação de preço e exige acompanhamento constante não apenas da bolsa, mas de todo o ambiente macroeconômico.

Ao mesmo tempo, abre espaço para decisões mais estratégicas, seja na escolha entre mercado interno e exportação, seja na captura de oportunidades pontuais.

A provocação que emerge desse novo contexto é direta: o produtor brasileiro está vendendo café ou, sem perceber, fazendo aposta em dólar?
Em um mercado cada vez mais financeiro, a resposta pode definir o resultado da safra.
 

Por:

 Priscila Alves I Instagram: @priscilaalvestv

Fonte:
 Notícias Agrícolas
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