Nas principais regiões produtoras do Brasil a janela ideal de plantio para a segunda safra de milho se encerrou no último final de semana, com o encerramento do mês de fevereiro. A partir de agora, as lavouras semeadas em março ficam sob maior risco climático e podem produzir menos ao final da temporada.
Nos cálculos de Vlamir Brandalizze, analista de mercado da Brandalizze Consulting, ainda faltam entre 3,5 e 4 milhões de hectares que seriam da safrinha de milho sem serem plantados e sob alto risco de perdas.
Já de acordo com os dados de acompanhamento de safras da Conab, 64,9% da segunda safra de milho havia sido semeada até o último sábado (28), o que indica que ainda restam cerca de 6, milhões de hectares para atingir a projeção de 17,8 milhões publicada pela Companhia em fevereiro.
“Cada dia que passa é um complicador. Se cortar a chuva cedo, certamente já não produz grande coisa”, avalia Brandalizze.
Neste cenário de atraso, a pergunta que fica é qual será a estratégia adotada pelo produtor brasileiro, esticar o plantio e assumir um risco maior, ou paralisar as atividades e apostar em cultivos alternativos no restante das áreas?
Para o analista de mercado da Agrifatto Consultoria, Eduardo Seccarecio, a opção deve ser estender a semeadura do cereal, mesmo que fora da janela indicada para a cultura, pelo menos na maior parte das regiões produtoras do país.
“Começou a afetar um pouco a questão do plantio do milho segundo a safra. E essa questão de perder área para outras culturas, é um ponto para as regiões que tiveram a sua janela de soja afetada lá atrás, que empurraram essa janela muito para frente. Agora o produtor fica um pouco receoso em plantar milho ou não, então pode ser que a gente tenha, principalmente, em Goiás e Minas Gerais, uma migração um pouco mais pronunciada para sorgo, que a gente percebe que é uma cultura que vem ganhando bastante espaço também no mercado”, avalia Seccarecio.
Em Jataí/GO, a produtora Lia Katzer relatou que ainda faltam cerca de 30% da área para plantar nesta segunda safra, mas a opção escolhida será seguir com a semeadura, mesmo diante dos riscos maiores, e apostar em um remanejamento de recursos.
“A safrinha vai entrar março adentro com plantio, pelo menos, até o dia 10. Então já corremos risco de ter uma safrinha com produtividade mais baixa, mas vamos plantar porque essa semente, o nitrogenado, já está em posse do produtor. A estratégia vai ser baixar a população e diminuir a aplicação de nitrogenados, que será remanejado para os milhos plantados dentro da janela”, pontua Katzer.
Já em Bebedouro/SP, região que também registrou grande atraso na safra de soja 2025/26, o plantio do milho será praticamente inviabilizado em muitas das áreas previstas inicialmente, o que deve refletir em queda na área do cereal e aumento em outras culturas, como o sorgo por exemplo.
“O milho tem janela um pouco estreita que acaba no final de fevereiro, temos uma regra técnica que se pode plantar até dia 28 de fevereiro. Após isso, temos a oportunidade que é o sorgo, que vem crescendo nos últimos anos e tendo destaque em termos de produtividade, manejo e preços interessantes que rendem bom resultado financeiro”, conta Paulo Officiati, gerente comercial de sementes na Coopercitrus.
Até a semana passada, a região de Sertanópolis/PR havia colhido apenas 5% da área cultivada com soja, quando o normal para a última semana de fevereiro seria algo próximo de 40%. Sendo assim, mesmo a região tendo o costume de plantar o milho um pouco depois do que outras localidades, o impacto também será sentido.
“Os plantios feitos na última semana de fevereiro e na primeira semana de março são as melhores épocas para a região. Porém, o que a gente vê é que o plantio deve se estender até quase o final de março. A preocupação é que, em alguns anos, o seguro rural se estendeu até 30 de março, mas o normal é até dia 20. Então se não houver prorrogação, muita gente pode ficar sem janela de plantio do milho safrinha”, alerta o produtor rural Marilson Dorigon.
O Mato Grosso é outro estado que enfrenta essa dificuldade. Os trabalhos de colheita da soja ficaram mais de uma semana paralisados na região de Diamantino devido as chuvas recorrentes, o que também impediu o avanço das plantadeiras de milho.
“Está atrasada a colheita e está atrasado o plantio do milho. Vamos ter muito milho fora da janela, cerca de 30% da área será semeada após este período”, relata Altemar Kroling, presidente do Sindicato Rural de Diamantino/MT.
Independente de qual seja a escolha destes produtores, isso deverá se refletir nas estimativas de produção para a segunda safra, seja por áreas não semeadas ou seja por lavouras com menor nível tecnológico empregado.
No início de março, a Safras & Mercado reduziu em cerca de 1 milhão de toneladas sua expectativa para a produção da segunda safra de milho do Brasil, que agora está estimada em 100,585 milhões de toneladas, abaixo das 101,790 milhões esperadas em dezembro.
Entre janeiro e fevereiro, a Conab também reduziu sua projeção de produção para a segunda safra de milho no país, que saiu das 110,461 milhões de toneladas estimadas no primeiro mês de 2026 para 109,262 milhões em fevereiro.
Para os analistas ouvidos pelos Notícias Agrícolas, esse cenário deverá impactar nos preços do milho no Brasil, movimento que já começou a ser sentido nas cotações futuras da Bolsa Brasileira (B3).
“Os vencimentos julho/26 e setembro/26 já estão na casa dos R$ 70,00, mas há alguns dias estavam nos R$ 66,00. Então a B3 já está olhando para isso e precificando esse atraso no plantio. O milho ainda está barato e podemos ver mais valorizações daqui para frente”, diz Brandalizze.
“Qualquer questão que esteja relacionada a um atraso de plantio, ou mesmo alguma possibilidade de impacto na janela de segunda safra, poderia sim se refletir em um cenário de valorização dos preços, ainda que momentâneo”, Francisco Queiroz, analista do Itaú BBA.