A produtora de violetas, Marisa Gog, cultiva 2,5 milhões de vasos por ano, o que corresponde a 50 mil unidades semanais, em 4,2 hectares de estufas. Ela representa milhares de floricultores que enfrentam um gargalo claro: no Brasil, ainda não existe tecnologia suficiente para automatizar a produção de flores, obrigando o setor a depender de trabalho manual pesado.
A diferença em produtividade é impressionante. Para manter a mesma produção de 50 mil violetas por semana, Gog precisa de 30 funcionários, enquanto no exterior sistemas automatizados realizam o mesmo trabalho com apenas 5 ou 6 pessoas. O contraste evidencia não apenas a falta de inovação no país, mas também o potencial desperdiçado que a automação poderia trazer para os floricultores brasileiros.
Falta de automação limita a produtividade
Em 2012, a única máquina produzida no Brasil que a produtora adquiriu foi uma selecionadora de mudas de violeta, totalmente nacional, desenvolvida por seu marido em parceria com estudantes. A empresa responsável era a MVisia, cujo valor acordado para a máquina foi de R$ 20.495,72. No entanto, em 2019, após o projeto ter sido vendido para a empresa WEG, a tecnologia acabou engavetada.
“Hoje eu tenho uma máquina brasileira, porém não tenho mais assistência técnica, por isso ela está parada. Esse equipamento é essencial para a seleção das mudas de violeta, automatizando a contagem e a separação por cor e tamanho. Nós dávamos o comando para separar, por exemplo, 5 mil mudas azuis e 5 mil vermelhas por semana, garantindo o sortimento do nosso leque. Quando a quantidade era atingida, a máquina parava automaticamente. Hoje, eu não tenho mais esse recurso”, contou Marisa.
Segundo a produtora, sem a automação, todo o processo passou a ser feito manualmente, o que exige alta especialização da equipe, compromete a padronização da produção e inviabilizou a exportação de mudas para a Holanda, mercado atendido até 2023.
Falta de mão de obra é um grande desafio para o produtor
Além das limitações tecnológicas, a escassez de mão de obra é um desafio crescente para a floricultura. Segundo Gog, o problema não está nos salários, que são semelhantes aos de outros setores, mas nas condições do trabalho agrícola, que exige esforço físico, contato constante com substrato e convivência com temperaturas elevadas, mesmo em estufas climatizadas. Em Holambra, cidade turística com diversas alternativas de emprego, o setor acaba competindo com atividades que oferecem ambientes mais atrativos, dificultando a formação de equipes e a permanência de jovens e famílias nas estufas.
“Quando comparamos com outros segmentos, o salário é muito parecido. Porém, o trabalho na agricultura é mais pesado. Você acaba se sujando com substrato e o ambiente é mais quente. Mesmo com estufas climatizadas, o calor permanece. Voltamos a oferecer moradia, mas já não encontramos famílias interessadas. Os jovens não querem trabalhar em estufas e acabam migrando para outros segmentos”, afirmou a produtora.
Mesmo com a oferta de benefícios e sistemas de premiação, a retenção de funcionários segue sendo um desafio. A situação é agravada pela complexidade da gestão de pessoas no campo, onde até cargos de liderança enfrentam dificuldades para lidar com conflitos e com a cobrança por resultados.
Segundo a produtora, a floricultura é um dos segmentos mais manuais da agricultura. Diferentemente das grandes culturas, amplamente mecanizadas do plantio à colheita, o cultivo de flores exige várias etapas feitas à mão, como o estaqueamento da folha, a separação das mudas e o plantio nos vasos, o que torna o processo mais lento e dependente de mão de obra.
Diante desse cenário, Marisa avalia deixar de produzir variedades que exigem o plantio de até 35 mudas por vaso, cuja produtividade gira em torno de 400 vasos por dia, bem abaixo das violetas, que contam com alguma automação e alcançam até 7 mil vasos diários.
“No cultivo de flores, tudo é muito manual, desde encher o vaso até plantar a muda. Eu também produzo fitônia, mas, dependendo do vaso, são necessárias 5, 15 ou até 35 mudas, o que torna o trabalho ainda mais demorado. Com a falta de mão de obra, já precisei reduzir essa produção e, em breve, talvez até parar. Por isso, começamos a pensar em focar apenas na violeta, que conta com uma máquina capaz de encher o vaso e preparar o plantio”, explicou Gog.
O Notícias Agrícolas entrou em contato com a WEG, empresa responsável pela aquisição dos direitos da máquina selecionadora de mudas citada por Marisa na reportagem. Até a publicação desta matéria, a empresa não respondeu aos questionamentos sobre possíveis dificuldades ou limitações para atender o mercado de flores e plantas ornamentais, nem sobre a existência de projetos ou tecnologias voltados à automação da floricultura. A reportagem poderá ser atualizada a qualquer momento.